domingo, 25 de maio de 2008

Contemporâneos


Sem margem para dúvidas: Uma lufada de ar fresco.

Em Portugal fazer Televisão é tarefa árdua. Muito mais será no caso de estarmos a falar de formatos humoristicos.

Primeiro que tudo a própria missão de fazer rir um país que tem sido fustigado pelos flagelos sociais como o desemprego, a miséria por inerência e a violência já é, por si só, uma tarefa herculiana.

O segundo problema passa pelo enquadramento do humor nas grelhas das nossas televisões. O género humorístico tem vindo a ser concebido como marginal e depositado nos horários proibitivo em que a gargalhada se vê enleada com os bocejos.

O terceiro ponto, talvez o mais gritante é a falta de originalidade. Em Portugal, os iluminados responsáveis por estes formatos geralmente vão, aqui e acolá, buscar inspiração e influência aos dinossauros do humor internacional. O resultado é pois óbvio. Um género híbrido que soa a Monty Phyton mas que se perde numa interpretação medíocre, num texto que não faz sentido na nossa língua perante uma realidade díspar do argumento original.

Foi uma imensa satisfação que assisti à estreia do programa Contemporâneos na RTP.

Um formato original com o selo de qualidade das Produções Fictícias, um programa em horário nobre, de argumentistas (Eduardo Madeira e Nuno Markl) com provas dadas, interpretada por actores consagrados e, sobretudo, talentosos: Bruno Nogueira, Maria Rueff, Dinarte, Nuno Lopes, Gonçalo Waddington e Carla Vasconcelos

Ao contrário dos Gato Fedorento, que se esgotavam nos rasgos de talento do Ricardo Araújo Pereira, nos Contemporâneos há uma homogeneidade na qualidade das interpretações. As piadas são mais trabalhadas, algumas mesmo subliminares (que não dispensam a leitura do jornal)

Certamente não será fácil ser-se herdeiro do Gato Fedorento mas este projecto tem mais do que qualidade para vingar nas nossas televisões.

Original, criativo e arrojado.

Fica a sugestão.

A falta de polícias nas nossas esquadras: http://youtube.com/watch?v=EjpG-Ud6_e4
A mensagem de muitos MC no Hip-Hop: http://youtube.com/watch?v=NpGt8TcAQFA
Aqueles inergúmenos que não fazem nada na vida e que desvalorizam o trabalho dos outros: http://youtube.com/watch?v=-AfuOA9OSoQ

quinta-feira, 8 de maio de 2008

Futebol: Xeques-Matam


Calamitoso. É este o estado do futebol em Portugal.

A alegoria usada para entitular este artigo pode remeter, em particular, para a situação que se vive no Boavista mas é entensível a todo o Futebol Português.

Suspeição relativamente à verdade desportiva, agentes indiciados em esquemas de corrupção que continuam no activo, ordenados em atraso, sociedades anónimas desportivas em processo de bancarrota, sebastianistas financeiros que prometem milhões mas que acabam detidos.

Perante um cenário tão negro uma coisa é certa, o estado das coisas vai melhorar. Pior pelo menos será impossível.

O futebol acaba pois por ser um reflexo da sociedade em geral: vive-se acima das possibilidades.

Começo já a por em causa as vantagens, para muitos clubes, de ascenderem à primeira liga do futebol profissional. Senão vejamos:

A realidade é esta; mesmo sem uma base económica que os sustente muitos clubes que ascendem à primeira liga gastam o que têm e não têm para assegurarem a manutenção, são obrigados a fazer melhorias nos estádios porque a federação a isso exige, investem em jogadores de renome, dobram os salários dos que já compunham o plantel, alguns deles até remodelaram os seus estádios para o Euro 2004.

Atentemos nos clubes que têm figurado, nos últimos anos, no principal escalão do futebol português em que verificamos um notório colapso económico e desportivo. A lista será de grande extensão e certamente deixarei alguns clubes de fora.

Chaves, Moreirense, Tirsense, União da Madeira, Salgueiros, Santa Clara, Gil Vicente, Leiria, Beira-Mar, Campomaiorense, Varzim, Penafiel, União de Leiria, Farense

Em Portugal há que combater um ciclo vicioso que torna o futebol uma actividade que nao augura nada de positivo.

Suspeição e um clima de clivagem entre dirigentes tornam o jogo pouco apelativo, propagam a irracionalidade e a disputa violenta entre adeptos, afastam as pessoas dos estádios, redundam na insustentabilidade económica dos clubes.

Por mais voltas que se dê a liga portuguesa será, mais tarde ou mais cedo, encurtada. Talvez a opção passará por uma liga de 10/12 clubes ao género do que se pratica na Escócia sendo que será disputada a mais do que duas voltas.

São os ditos grandes que sustentam a Liga, quantos mais jogos entre eles houver mais ela beneficiará.

sexta-feira, 25 de abril de 2008

PSD: Laranja Amarga


Da nomenclatura Partido Social DEMOcrata só se salvará mesmo o DEMO. É que no principal partido da oposição têm acontecido coisas que nem ao Diabo lembrariam.

Penso que não haverá discordância caso diga que a crise no PSD terá o seu marco cronológico na assunção, por parte de Durão Barroso, do cargo de Presidente da Comissão Europeia.

Depois de dois mandatos de Guterrismo, com a consequente corrosão política uma governação prolongada acarreta o PSD deveria ter aproveitado "o pântano" para emergir politicamente e sedimentar o seu estatuto de principal partido.

Melhor conjuntura não haveria certamente.

As bases do Partido Socialista, aqueles que foram os pilares do Guterrismo encontravam-se, passo a expressão, envoltos no lodo. Figuras socialistas proeminentes como Jorge Coelho, Maria de Belém, Maria Manuel Carrilho e o próprio José Sócrates enfrentavam um descrédito político que só um afastamento temporário ou renovação partidária são capazes de sarar.

Uma vez mais o Partido Social Democrata errou, errou devido a um problema que poderemos apelidar de congénito.

Desde a sua fundação o PSD sempre viveu de líderes carismáticos e não de uma base programática sólida e sustentada, as ditas "bandeiras de campanha". Fazendo uma analogia com o Futebol a blindagem de um líder do PSD esteve sempre umbilicalmente ligada aos seus desempenhos nas urnas. E sem vitórias, meus amigos, não há figura que se sustente por muito tempo.

Saido Durão Barroso o PSD optou por um líder mediático, arrisco, populista. A governação de Santana Lopes foi um reflexo de si mesmo, Santanalopocêntrica, nascisistisca até mais não. A Santana terá certamente faltado ler a Arte da Guerra de Sun Tzu, uma autêntica Bíblia na arte de bem guerrear. Ao centrar a política partidária na sua pessoa foi escudo humano para todas as farpas que se lhe apontavam. Acabou por se esfumar com a mesma receita com que se elevou políticamente: mediatismo e política brejeira.

Afinal como diz Sun Tzu "Ir à caça sem um guia é perder o dia".

O fosso que se cavou no seio do PSD após a dissolução da Assembleia, por parte do Presidente da República Jorge Sampaio, foi grande demais para que fosse o nanismo Marques Mendiano a conseguir tapá-lo.

Uma vez mais foram depositadas esperanças num líder mobilizador e relegou-se a componente programática para segundo plano. Marques Mendes foi apenas transitório, foi carne para o assadouro, o curativo até o sarar de feridas mais profundas.

Confesso que julguei que a liderança de Luís Filipe Menezes fosse o elixir de juvialidade que faltava ao Partido Social Democrata mas, uma vez mais, as querelas fracticidas internas no principal partido da oposição minaram qualquer possibilidade de isso acontecer. Não foi preciso bomba para que o líder do partido abandonasse as funções mas a notícia terá certamente caído que nem uma bomba.

Como que um barco à deriva o PSD fica novamente à mercê das figuras mais populistas uma vez que 2009 e as legislativas se aproximam a passos largos. Mais do que um líder no PSD urge encontrar um peso pesado para fazer face a um José Sócrates que já deve ter desaprendido o significado da expressão "oposição".

Rematando sobre a situação de convulsão no PSD e parafraseando novamente Sun Tzu, quando nos conhecemos a nós e ao inimigo as probabilidades de vencer são grandes, quando só nos conhecemos a nós e não o inimigo as nossas possibilidades de sucesso cifram-se nos 50%, quando nem nos conhecemos a nós nem ao inimigo a derrota é o cenário mais provável.

E os piores inimigos do PSD estão entre portas..


sexta-feira, 18 de abril de 2008

Google: Info(com)plex

Chegou, viu e venceu.

Em poucos anos, o portal de busca criado para efeito de doutoramento por dois engenheiros informáticos americanos (Sergey Brin e Larry Page) tornou-se um colosso à dimensão da infinitude que a expressão "Google" pretende traduzir.

Num contexto em que a maior parte dos portais se erguia numa lógica de excessiva preocupação gráfica e com serviços de busca baseados em directórios complexos a Google surgiu no seu estilo minimalista e simples.

Enquanto que portais com Yahoo e Altavista centravam as suas pesquisas segundo critérios meramemente quantitativos (o ranking das páginas era estabelecido consoante o número de visitas) a Google foi o primeiro a estabelecer a ordenação por intermédio de critérios subjectivos. As preferências dos utilizadores, que faziam hiperligações para os sites de maior interesse passaram a definir a ordem de aparecimento das páginas na pesquisa e isso fez toda a diferença.

A proliferação online da Google deveu-se também à adopção de uma filosofia "user-friendly" (amiga do utilizador). Tudo é simples na Google. Menus básicos, cores simples mas apelativas, linguagem acessível e quase informal. A nível laboral a Google tornou-se a empresa mais apelativa para ingressar. Na Google não há horários, há objectivos. Na Califórnia, no Googleplex, complexo de 42 mil metros quadrados onde está sediada a empresa, as refeições são grátis, os funcionários podem levar os animais de estimação, há ginásios, infantário, piscinas, campos de volley. Cada funcionário trabalha para a Google mas tem incentivos para desenvolver projectos próprios.

Sem dúvida uma filosofia notável.

Porém o crescimento da Google é tão notável quanto assustador. O volume e a diversificação dos seus projectos têm tornado esta empresa possuidora de informação priviligiada. Até onde poderá ir o poder da Google?

Ao longo da história da humanidade a estratificação social e as próprias relações de poder têm-se definido pela posse/domínio/controlo de determinadas variáveis.

Durante todo o processo de hominização a força, as capacidades físicas sempre foram o factor que permitiu o estabelecimento de relações de poder. Foi também por demonstrações de força que se fundaram os grandes impérios Egípcio, Persa, Grego, Romano entre outros.

Por sua vez as propriedades latifundiárias, a posse de terra tão característica do regime feudal que definia quem era senhor e quem era vassalo e prestador de serviços, quem tinha poder de decisão, quem tinha legitimidade de proclamar guerra.

Com o advento do capitalismo financeiro tudo mudou. A sociedade passou a estruturar-se pela sua posição no processo de produção, o patronato possuidor de capital passou a ter poder de decisão sobre o proletariado operário.

Desde o último século, com especial impacto desde a década de 70 a posse de energias não renováveis tem sido o recurso escasso que mais poder tem conferido a uma pequena oligarquia decisora.

De todas as variáveis o saber será concerteza aquela mais transversal a todos os períodos históricos, quer estejamos a falar nos sofistas, nos copistas monásticos, quer nos investigadores científicos.

Aquilo que sucede com o advento das novas tecnologias é que o saber livresco e literário tem dado lugar a uma nova cambiante de poder: a informação.

Ter informação é ter poder, ter informação privilegiada pode tornar-nos milionários ou evitar o nosso colapso em bolsa (inside-trading), ter informação permite-nos tomar decisões com um controlo seguro das suas repercussões, ter informação permite-nos efectuar os melhores negócios, ter informação secreta permite combater células terroristas, ter informação permite debelar vírus e doenças contagiosas.

Numa componente governativa ou empresarial a informação assume proporções ainda mais relevantes. É tão essencial para uma empresa saber para quem comunica e vende produtos, através de estudos de mercado como para um Governo saber para quem governa.

Uma base de dados tão complexa como aquela que é o CENSUS reveste-se de uma importância crucial. Saber se a população é maioritariamente idosa, que as as famílias são monoparentais, que os agregados familiares têm na maioria três pessoas, que a maior parte da população jovem se encontra no litoral, que a maioria da população tem casa própria permite uma maior eficácia na afectação de recursos e na definição de políticas.


Agora imaginemos uma base de dados incomensuravelmente maior.

No portal Google, cada vez que premimos um conjunto de caracteres e carregamos na tecla "ENTER" estamos a alimentar a base de dados mais completa do mundo.

Através de redes sociais como o Orkut a Google sabe o nosso estado civil, que amigos temos, o que gostamos de fazer, onde gostamos de ir, o que gostamos de ver, que livros lemos, quais as nossas preferências religiosas e até sexuais. A Google sabe os produtos que pretendemos comprar (google-adwords), sabe a instituição onde estudamos, onde trabalhamos, os locais de diversão onde pretendemos ir, qual o destino de férias para onde pensamos ir, a Google tem acesso aos nossos pensamentos (blogger), à nossas preferências televisivas e de ócio (youtube) aos nossos projectos e trabalhos (google docs), aos nossos albuns de família (Picassa), ao nosso espaço doméstico, à nossa intimidade.

Não pretendo fazer qualquer teoria conspirativa mas apenas levar a uma reflexão profunda. É tão lícito confiarmos no maior portal global como levantar algumas questões sobre a posse hegemónica de informação privilegiada sobre cada utilizador. Nenhum departamento, empresa, serviço policial, Estado possui tamanha informação.

Actualmente a Google possui agregadas mais de 1,3 biliões de páginas e tem um volume de pesquisas de cerca de 100 milhões por dia com clara tendência para crescer uma vez que assistimos a uma tendência para a democratização no acesso às Tecnologias de Informação.

Apesar da sua importância o mundo da internet e da segurança e protecção de dados ainda não tem a mesma paridade perante a lei se comparada com outros domínios sociais. Por enquanto a Google está bem entregue sendo um projecto originalmente inovador, criativo, inspirador de confiança.

Mas até quando a Google deixará de ser um precioso aliado para ser um perigoso inimigo?

sábado, 12 de abril de 2008

Observador XXI - 1 ano


É com imensa satisfação que assinalo, 56 artigos depois, o primeiro aniversário deste blog.

O Observador XXI nasceu da vontade de ser diferente, da necessidade de ir mais além, da irreverência jovial, do espírito crítico que os media alinhados por vezes não conseguem exprimir. Assim continuará no futuro.

Quero agradecer a todos os amigos e companheiros que fazem questão de me seguir continuamente mas também a todos aqueles que no Brasil, Estados Unidos, Reino Unido, Espanha, França, Suiça, Moçambique, Angola e tantos outros países fazem deste blog um ponto de passagem.

Porque ao expormos a nossa opinião nos sujeitamos à critica um obrigado a todos aqueles que não se inibiram de deixar um ponto de vista contrário e comigo esgrimiram argumentos. Hoje e sempre entenderei a diversidade de pontos de vista como um dos pilares essenciais para uma sociedade verdadeiramente plural e democrática.

Um agradecimento ao meu Pai pelo incentivo constante. Nuno, Ricardo, Pedro este espaço também é vosso.

Espero ver-vos e sobretudo ler-vos por aqui mais vezes.

Cumprimentos do amigo

João Pedro Pinto