Mostrar mensagens com a etiqueta Cho Seung-hui. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Cho Seung-hui. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 7 de maio de 2007

Cho Seung: NBC - O pender da balança


A decisão da NBC de publicar as imagens enviadas por Cho Seung-hui tem gerado polémica nos EUA. Teria a cadeia televisiva legitimidade para o fazer? A sua decisão foi lícita?


23 páginas de texto, 28 vídeos e 43 fotos são estes os motivos da discórdia.


Sabemos hoje que a correspondência foi enviada pelo homicida entre os dois ataques que compuseram o massacre. Após ter assassinado duas pessoas no dormitório da Universidade Cho colocou o pacote no correio com a morada da NBC, pouco depois, dirigiu-se para o edifício da Faculdade de Engenharia onde viria a matar 30 pessoas.


Um erro no código postal levou a correspondência a atrasar dois dias.


Qualquer dúvida que poderia subsistir foi dissipada. Seung preparava este ataque há meses.


Uma das fotografias enviada sugere mesmo que Cho ter-se-á inspirado no filme OldBoy, do realizador Coreano Park Chan-Wook, vencedor de um prémio no Festival de Cannes em 2004. O filme retrata a história de um homem preso sem qualquer tipo de justificação.



Após 15 anos de cativeiro ele procura vingar-se de quem orquestrou o seu aprisionamento.


É um filme de violência física e psicológica explicita. Um filme que aborda questões como vingança, amor, a ultra-violência, a crise da vida moderna, a hipnose e obstinação, tudo isso envolto em tabus sexuais. As semelhanças com a vida de Cho são notórias.




Muito para além do homicídio, Cho pretendeu que o seu acto tivesse ainda maior impacto. Ele próprio foi mensageiro dos seus actos e intenções, foi porta-voz da sua revolta contra os "ricos e mimados". Antecipou-se à grande máquina mediática saciando a sua voraz curiosidade e respondendo à questão mais anseada pelos jornalistas:"porquê?".


A divulgação do vídeo pela NBC gerou uma acesa troca de criticas na sociedade americana. De acordo com Steve Capus, presidente da cadeia televisiva, a NBC "reflectiu muito" antes de tornar o material público. Capus revelou ainda que "há material que não foi publicado" e que "o mais apropriado é que o seu conteúdo não seja revelado".
Após ter enviado o material às autoridades federais a NBC fez uma triagem no material a ser publicado o que se afigurou como uma decisão "muito difícil".


Como retaliação a NBC viu serem-lhe canceladas a maior parte das entrevistas de pais e amigos das vitimas. A decisão também mereceu criticas por parte da policia. "Não gosto de pensar que pessoas que não estão acostumadas a esse tipo de imagens tenham sido obrigadas a vê-las" afirmou SteveFlaherty, chefe da policia da Virginia.


Numa entrevista ao Newsday, Ellis Henica, especialista na critica aos media, acusou a NBC de "fingir que a sua decisão foi difícil ao levar as imagens para o ar para terem uma melhoria na audiência". As críticas espalharam-se quer pelos órgãos de comunicação social, quer por toda a blogosfera.


É ponto assente que a divulgação das imagens contribuiu para sensionalizar o acontecimento e que há o risco dos actos de Cho Seung-hui serem um incentivo para que outros o imitem. Aquilo que está em discussão é se o dever de informar se pode sobrepor aos princípios éticos que devem reger a prática do jornalismo.


Nenhuma redacção do mundo deixaria de publicar as fotos e vídeos em questão, principalmente quando se tem o exclusivo e o material nos foi enviado pelo próprio homicida. Há um valor informativo subjacente ao material enviado quer permite esclarecer a opinião pública sobre as motivações e o desvio normativo do assassino.


Mark Fisher, do Washington Post refere que "os jornalistas não têm o direito de esconder o material que é tão essencial para compreender um episódio de grande interesse público. Em casos emocionalmente difíceis como este, o público tem o direito de ver aquilo que nos ajuda a compreender quão descolado da realidade este sujeito estava e que tipo de sintomas este tipo de psicose apresenta".


Apesar do presidente da NBC ter referido que a estação tentou ser "o mais respeitosa possível com as famílias envolvidas" é certo que a cadeia televisiva teve falhas grosseiras.


As primeiras imagens do vídeo foram exibidas pelo programa Nightly News, um programa em horário nobre. Se a preocupação da estação tivesse sido a de respeitar a sensibilidade dos espectadores elas deveriam ter sido exibidas num horário mais apropriado impedindo o seu acesso a crianças.


A violência nas imagens é essencialmente de índole psicológica. Não houve, por parte da NBC, um único aviso sobre a possibilidade das imagens ferirem a sensibilidade dos espectadores. Numa sociedade em que o "parental advisory" é tão recorrente é estranho não ter sido aplicado nesta situação.


A divulgação das imagens constituiu aquilo que Clint Van Zandt, ex-agente do FBI, referiu na NBC durante a apresentação das imagens "a última vitória de Cho".


Cho venceu um departamento psiquiátrico, venceu um serviço de saúde, venceu um sistema escolar, venceu autoridades inertes, venceu um país obcecado com as ameaças exteriores e que deixa os seus cidadãos caidos no esquecimento.


Para todos os que deixaram que Cho Seung-hui vencesse cito Henry Ford "O insucesso é apenas uma oportunidade para recomeçar de novo com mais inteligência."

Veja o Vídeo do manifesto de Cho Seung-hui:



Artigos Relacionados:

Virgínia: Silêncio dos Inocentes


quinta-feira, 19 de abril de 2007

Virgínia: Silêncio dos Inocentes


Columbine não serviu de lição.


Uma vez mais na América, uma vez mais numa Universidade, uma vez mais um jovem tem acesso a armas de fogo, uma vez mais dezenas de inocentes mortos.


A 20 de Abril de 1999 os Estados Unidos acordavam para mais uma tragédia. O reputado Instituto Columbine, Colorado, seria palco de uma carnificina atroz. Eric Harris de 18 anos e Dylan Klebold de 17 assassinaram 13 colegas recorrendo a armas de fogo e dezenas de explosivos.


Desta vez, em 2007, o alvo foi a Universidade Técnica da Virginia. Amanhã, caso tudo continue como até agora, um outro estabelecimento poderá ser o seguinte.


Cho Seung-hui, de origem sul-coreana tinha 23 anos e era, segundo relatos de familiares e colegas, um jovem timido e introspectivo mas brilhante.


Cho Seung, apesar de ter perpetrado o massacre no campus universitário, é uma vitima. Vitima do sistema americano de liberalização de armas, um sistema que permite a qualquer cidadão americano maior de idade e sem antecedentes criminais comprar uma arma de fogo.


Um sistema em que para comprar uma arma usada não é necessário apresentar a folha criminal nem exames que atestem a sanidade mental do comprador. Um sistema em que as armas e balas são vendidas em supermercados e cujos preços variam entre os 88 e os 432 euros.


Um sistema em que a NRA (National Riffle Association), uma associação de defesa do porte de armas com 3 milhões de associados, tida como a sucessora do Ku Klux Klan é financiada pelo Estado e constitui um dos maiores lobbies do país.


O jovem é pois vitima de uma sociedade violenta, obcecada pela posse de armas, com forte segregação racial na qual possuir uma arma é um direito consagrado constitucionalmente e que "não deve ser infringido (...) para a segurança de um estado livre".


Mais assustadoras que o massacre em si são as reacções ao mesmo. Paul Craig Roberts, um comentador conservador, que já pertenceu à administração Reagan reagiu da seguinte forma aos incidentes na Virgina:


"As trágicas mortes dos estudantes, aparentemente por uma pessoa insana, activarão novas tentativas de se banir a propriedade privada das armas. Assim que as armas forem banidas, a criminalidade explodirá. Donas de casa e membros vulneráveis da sociedade perderão a capacidade de se defender, abrindo espaço para mais invasões e ataques. A quantidade de crimes com armas brancas aumentará, assim como já ocorre na Grã Bretanha. A proibição de armas criará uma nova actividade para os criminosos como o tráfico de armas e vendas no mercado negro."


Curiosamente o campus universitário permanece, nos Estados Unidos, como um dos poucos locais em que a entrada de armas ainda é proibida.


Poderíamos pensar que o lobby do armamento é exclusivo da NRA mas a posse de armas é algo tão intrínseco à população americana que ela própria exerce pressão para que sejam totalmente liberalizadas.


Numa entrevista ao portal Diário Digital, Alex Newman, 21 anos, estudante de Jornalismo na Universidade da Flórida diz que se fosse permitida a entrada de armas na Universidade Técnica da Flórida "iria haver alguém com uma, que soubesse usá-la e que podia parar o atirador. Pelo menos haveria menos pessoas mortas. Queremos mais pessoas com armas, só assim as vitimas estarão em pé de igualdade com os criminosos."


É sintomático de uma sociedade violenta quando, na mentalidade de um jovem, está enraizado o principio de que a melhor defesa é o ataque.


Foi preciso morrerem mais 32 pessoas para que o debate sobre a proibição de armas de fogo fosse relançado. Como referiu oportunamente Rui Tavares (Público, nº 6229, Pingue-Pingue) o chavão mais comum para os defensores da posse de armas nos EUA é "não são as armas que matam pessoas, as pessoas é que o fazem".


Segundo a Visão nº 737 existem 192 milhões de armas nos lares americanos, 100 milhões de dólares é o valor que o lobby pró-armas dispende anualmente para campanhas políticas, 30 mil pessoas morrem todos os anos nos EUA devido a incidentes com armas e 30 por cento da população tem uma ou mais armas em casa.


É fácil percebermos agora os constantes vídeos de perseguições a criminosos em plena auto-estrada ou tiroteios em estações de serviço, todos eles filmados nos EUA. O medo causado na população obriga qualquer cidadão responsável a autodefender-se. E na América segurança é sinónimo de dedo no gatilho. Parafrazeando Cho Seung-hui os Americanos "têm sangue nas mãos e nunca vão conseguir limpá-las."


Num CD enviado pelo próprio à NBC e que continha fotos, videos e algumas páginas de texto Cho Seung-hui dizia o seguinte: "Vocês devastaram o meu coração e queimaram a minha consciência. Acreditavam que estavam a extinguir a vida de um menino patético. Graças a vocês, morro como Jesus Cristo, para inspirar gerações futuras de pessoas frágeis e indefesas"


Que Cho permaneca na mente dos americanos como um inspirador, um inspirador de mudança para que, de uma vez por todas, o Estado bana as armas de fogo e repense a sua politica exterior hostil. Quantas mais "pessoas frágeis e indefesas" terão que morrer?


Artigos Relacionados:

Cho Seung: NBC: O Pender da Balança