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quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Curtas: Obama I


Foram de discórdia a maior parte das reacções ao Prémio Nobel da Paz recebido por Obama.

Para a generalidade da opinião pública os esforços do Presidente Americano são, até à data, diminutos face aos valores que o prémio pretende laurear.

Obama fechou fisicamente um símbolo político da governação Bush (Guantanamo) mas subsiste a impressão que a Convenção de Genébra continua por respeitar.
Obama não ordenou a retirada dos cenários de Guerra onde os EUA estão envolvidos, pelo contrário, o contingente americano foi reforçado em 20 mil homens no Afeganistão.

Porquê então premiar Obama?

Se para muitos o prémio é uma consequência do seu novo discurso e esforços diplomáticos, para mim, é um inteligente condicionamento que a Academia Sueca impõe à politica externa norte-americana para os próximos anos.

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

Obama: Ventos de Mudança


Uma força avassaladora.


Barack Hussein Obama desafiou os incrédulos, superou os renitentes, destronou os cépticos.

Se recuássemos quatro anos atrás e o jovem Senador do Illinois manifestasse então o desejo de se tornar Presidente dos EUA as suas declarações seriam alvo de gracejo. Como poderia um cidadão negro, um político inexperiente, um homem não oriundo das dinastias politicas americanas sequer aspirar a tal cargo?

Não só o público em geral soltaria uma gargalhada como também Obama, no seu âmago, largaria um sorriso como que pedindo desculpa por tamanha ousadia.

Em 2008, vemos Obama irromper pela bruma da noite, ladeado por estandartes simétricos "Stars and Stripes", os holofotes estão sobre ele, a multidão ovaciona-o numa euforia tão genuina como arrebatadora. Será este momento real ou apenas mais uma das demonstrações do poder dos simulacros hollywoodescos? Obama de pronto nos dissipa as dúvidas.

«Se existe alguém quem ainda duvida que a América é um sítio onde todas as coisas são possíveis (..) que ainda questiona o poder da Democracia. Tem hoje, aqui, a resposta»

Barack Obama tem razão.

Não foi só uma grande vitória para os Democratas, foi uma vitória para a Democracia global, uma vitória que deveria ser vista por todos nós como um tónico para a mudança.

Não sei explicar o quê, mas há em Obama algo de magnetizador, uma vibrante energia positiva que só encontramos nos mais carismáticos líderes da história da humanidade, algo que perpassa nas suas palavras mas que as transcende.

Algo que mobilizou, como nunca antes na história dos EUA, os cidadãos para as mesas de voto, algo que os fez acreditar na importância da participação cívica e na importância de cada voto singular na mudança de rumo do país, algo que devolveu aos jovens a vontade de ter expressão pública, algo que, numa conjuntura de crise, reuniu ricos e pobres, brancos e negros, novos e velhos,autóctones e imigrantes, católicos e islâmicos na convicção de que a «sua voz poderia ser a diferença».

É este o poder da verdadeira Democracia, unir na diferença.


Um discurso irrepreensível, sem a efusividade que muitos esperariam, mas à inércia postural Obama contrapôs uma cadência rítmica, palavras incisivas ditas com a profundidade de quem quer provocar rupturas.

Obama recordou que nunca foi o candidato provável, que a sua campanha se iniciou com poucos recursos e donativos, que cresceu em razão proporcional à vontade de mudança de cidadãos anónimos, homens e mulheres que viram nele o epicentro de toda a mudança. Alertou para os desafios que se avizinham, propôs reconstruir a América «bloco-a-bloco», lançou o repto à união e ao envolvimento dos cidadãos nesse processo, não cidadãos enquanto indivíduos, mas sim enquanto massas unidas capazes de debelar as feridas profundas causadas por oito anos trágicos.

Num discurso temporalmente tripartido Obama lembrou o passado, acentuou as dificuldades presentes mas remeteu para o futuro uma palavra de esperança, a retoma do sonho americano.

Mais do que uma vitória sem precedentes a história de Obama é a concretização do espírito de missão, do desejo de ir mais além, do desafiar de dogmas, convenções e preconceitos, um poder que está em todos nós e que depende do nosso espírito de iniciativa para vingar.

Obama tem condições para se tornar num dos mais marcantes líderes políticos da história, as suas ideias são inovadoras, o seu discurso optimista, a sua postura humilde.


A história de Obama extravasa o contexto político, é bem mais do que isso, uma lição que nos faz acreditar que podemos mudar o rumo dos acontecimentos mesmo quando ninguém nos dá crédito ou não nos vaticina sorte.

As mudanças afinal começam e acabam em nós mesmos, basta acreditarmos. Obama acreditou e faz-nos acreditar.


Tal como Obama proferiu vezes sem conta «Sim nós podemos!»

terça-feira, 4 de novembro de 2008

Tragédia Bush


Um erro de casting.

Numa alusão à mitologia grega poderemos estabelecer uma analogia entre George W. Bush e a figura de Ícaro.

Ícaro era filho de Dédalo, um dos homens mais criativos e de maior engenho de Atenas. Em comum Pai e filho tinham o anseio da superação, juntos criariam um par de asas tão perfeitas como as das aves, capazes de catapultar o homem para vôos mais altos. Coube a Ícaro testar a invenção do seu Pai, com a ajuda de alguns fios e de cera Dédalo fixou as asas ao corpo do seu filho. Não deixou porém de o advertir, Ícaro não poderia nem voar muito baixo porque o mar molharia as asas nem muito alto porque o Sol derreteria as junções feitas em cera.

Tomado pela sensação de liberdade e omnipotência Ícaro ignorou os conselhos do seu Pai, inspirado pela luz magnetizadora do Sol voou no seu encalço. Acabou por perder a vida despenhando-se no fundo do mar.

Troquemos o nome de Dédalo por George Herbert Bush, o de Ícaro por George W. Bush, as asas pela presidência dos Estados Unidos e teremos uma história de paralelismo perfeito.

Tal como na politica, também na vida George W. Bush lutou pela definição de si mesmo nunca conseguindo afastar a sombra da influência do seu pai; um magistério de influência do qual nunca se conseguiu distanciar desde a adolescência e que se repercutiu em muitas das suas decisões politicas.

O carisma do seu Pai foi sempre para Bush uma força opressora e inibidora do seu próprio desenvolvimento e crescimento emocional.

A missão de se emancipar segundo cânones paternais obrigariam um jovem estudante mediano, intelectualmente preguiçoso a superar-se. Não foram pois de estranhar as constantes crises de identidade durante o seu trajecto de vida. Bush desertou o exército de forma a fugir à guerra do Vietname, teve problemas com álcool e drogas, geriu de forma danosa as empresas petrolíferas da própria família.

Desenganem-se aqueles que pensam que o pior inimigo de Bush foi Bin Laden ou mesmo Saddam Hussein foi-o sim a sua interioridade, o desejo permanente de se emancipar politicamente em relação ao seu pai.

Um estudo do pai da psicanálise permite-nos compreender algumas das tomadas de decisão que Bush teve ao longo dos seus dois mandatos.

Em 1966, Sigmund Freud e William Bullitt elaboraram um estudo de avaliação psicológica do 28º Presidente dos Estados Unidos, Woodrow Wilson. Apesar dos mais de quarenta anos que separam esse estudo da actualidade há nele algo que assenta que nem uma luva na personalidade e no percurso de vida de George Bush, uma só citação a ligar as duas histórias de vida.

«Quando comparamos a força do homem com a magnitude da tarefa a que tinha metido ombros essa paixão é de tal forma avassaladora que se sobrepõe à realidade»

É público que George Bush foi o presidente dos EUA com o QI mais baixo mas foi sobretudo a sua fragilidade emocional que precipitaram o seu colapso. De forma a suprir as suas próprias limitações Bush rodeou-se de um circulo que rapidamente deixou de ser apenas um grupo de conselheiros para integrarem o seu circulo mais intimo: Cheney, Condoleeza Rice, Karl Rove, Collin Powell.

Após ter revelado dificuldades enquanto governador do Texas, Bush apenas se inteirou de politica internacional depois dos 40 anos ao ponto de desconhecer se a Alemanha integrava a NATO (pergunta feita a P.Wolfowitz em 1999), onde ficava o Paquistão, o que eram talibãs e mesmo de ter chamado aos naturais do Kosovo «kosovarianos».

Estas notórias dificuldades de George W. Bush ajudam a explicar que a pasta das relações internacionais tenha sido delegada em Powell, num primeiro mandato e em Rice, no segundo.

Bem aconselhado ou não aquilo que sabemos é que o mundo mudou após oito anos de Governação Bush. Vivemos num espaço marcado pela instabilidade tanto económica com em clivagem civilizacional.

Com a América ferida no seu âmago por atentados terroristas de contornos, no mínimo duvidosos, George Bush encetou uma autêntica caça ao Homem (Bin Laden) que rapidamente se alastrou a toda a comunidade árabe. Ao escolher um alvo de pele escura, vestido com turbante e de longas barbas, Bush declarou guerra a uma sinédoque de toda a civilização árabe, ,uma poderossima guerra psicológica discriminatória.

Embuído no seu espírito de democratização do Mundo George W. Bush invadiu o Afeganistão no encalço de Bin Laden. Bin Laden continua por localizar, o Afeganistão por democratizar.

Em 2003 a administração Bush apontou baterias para o Iraque, mais do que a geopolítica ou a ameaça por parte de Saddam de armas de destruição massiva o Iraque foi uma questão pessoal para a família Bush, uma meta decisiva para, pela primeira vez Bush exorcizar os seus próprios fantasmas de incompetência politica e se demarcar do seu pai.

À luz do que sabemos hoje será consensual afirmar que para lá dos objectivos económicos (é a segunda maior reserva de petróleo do Mundo) o Iraque foi invadido para que a família de Bush fosse vingada. Completando a missão que o Pai tinha deixado a meio no inicio dos anos 90 e derrubando Saddam Bush teria a sua primeira grande vitória política.

As consequências da governação Bush são desastrosas.

As politicas da sua administração reduziram a liberdade dos cidadãos em prol da sua segurança, hoje é possível prender sem mandado de captura, é possível deter por tempo indeterminado, sem respeito pelas convenções de Genébra, hoje as nossas comunicações são mais vigiadas, sofremos as consequências ambientais por Bush ter recusado seguir directrizes ambientais do tratado de Quioto, vivemos com mais dificuldades porque a tensão bélica causou instabilidade nos mercados energético, financeiro, comercial, capitalista.

Bush ascendeu a presidente em 2000 com menos votos que o candidato democrata Al Gore mas com mais delegados eleitos no colégio eleitoral. A sua vitória não foi uma vitória democrática mas uma criminosa campanha urdida num bastião da família Bush onde a recontagem dos votos no Estado da Flórida (administrada por um primo seu) foi decisiva.

Bush saboreou ao longo dos mandatos um decréscimo na sua popularidade (a mais baixa de sempre na historia dos presidentes) e tornou-se um presidente em descrédito numa América que perdeu o seu papel hegemónico a nível politico, económico e diplomático.

Tal como Ícaro Bush almejou voar até ao Sol; acabou por se afundar nas profundas águas do descrédito.

Este artigo pode também ser lido no Portal PTGate