segunda-feira, 21 de julho de 2008

TVI: Incendiários


Alguém na TVI saberá realmente o significado da expressão responsabilidade pública?

Tenho as minhas dúvidas.

Por volta do ano 2000 a TVI, ao leme de José Eduardo Moniz, enveredou numa estratégia de sensacionalismo que passava pelos programas "reality-show" como o era o Big Brother e por uma impregnação dessa postura no jornalismo. Resultado um jornalismo popular, tablóide, por vezes com conteúdos que em nada se adequam à prática da profissão e ao espaço onde são exibidos.

Contudo, nos últimos anos, o cenário tem-se vindo a alterar gradualmente. Não sei se por força da sedimentação das audiências, da posição estratégica ou por imposição da nova administração (os espanhóis do grupo PRISA) o jornalismo da estação de Queluz tem dado mostras de um incremento qualitativo, tendo mesmo grandes reportagens de grande qualidade. Não sei se também por mero acaso mas a informação da TVI tornou-se mais séria coincidentemente com o afastamento de Manuela Moura Guedes dos espaços noticiosos.

Novamente regressada aos ecrãs e por imperativos de fidelidade a um estilo só seu a "mulher-do-patrão" ressurgiu com o seu tão sobejamente conhecido estilo, não se imiscuindo de misturar informação com opinião pessoal.

Outros aspectos que me irritam são os conteúdos e as expressões usadas constantemente nos espaços informativos da TVI.

"Crise", "Bancarrota", "Apertar de Cinto", "Desespero", "Beco-sem-saída".

Será que alguém na TVI ainda não se apercebeu que todo o país já sentiu as consequências da conjuntura internacional, dos aumentos dos combustíveis, da especulação agrícola, do aumento das taxas de juros?

Será mesmo necessário que uma televisão que tem responsabilidade pública estar meia hora a falar num estilo melodramático a acentuar um desânimo que todos naturalmente sentimos? Não competiria a essa mesma estação abordar a crise e depois procurar mostrar aos cidadãos alternativas para a ela escapar?

Enquanto que um jornalismo positivo impele as pessoas num dinamismo e numa abertura de horizontes, o jornalismo negativo e obtuso da TVI só leva a uma sociedade mente capta de velhos do Restelo.


Afinal ninguém vai a um psicólogo para se sentir pior. Enquanto entidade de responsabilidade pública cabe a TVI, tanto denunciar a conjuntura negativa como mostrar alternativas. Mais do que informar compete-lhe formar.

Outro aspecto prende-se com um jornalista que já aqui elogiei aquando do caso Maddie: Hernâni Carvalho.

Este senhor desempenhou um trabalho ímpar na denuncia das teias de poder que se operavam nos meandros deste caso de contornos dúbios. Fez do seu espírito «incendiário», como o próprio diz, fez da sua força motriz e também do seu estilo acutilante um meio para conseguir ver para além do óbvio conseguindo dados importantes para a investigação.

Apesar de todos os créditos que lhe reconheço há coisas que não posso tolerar.

Qualquer pessoa que tenha o privilégio de aceder à televisão e ter um tempo de antena alargado deve, primeiro, perceber a responsabilidade que lhe está depositada, segundo, saber para quem está a falar.

O jornalista Hernâni Carvalho tem uma rubrica no programa matinal "Você na TV". Não é necessário ser-se um génio em sondagens e audiometria televisiva para sabermos que o público alvo dum programa matutino é essencialmente constituído por idosos, crianças e desempregados, logo uma população mais frágil quer física, quer psicologicamente.

O seu espaço, denominado de "Crime diz Ele" ressuscita a mítica série americana protagonizada por Angela Lansbury, o "Crime disse Ela" (Murder she Wrote). O problema é que Hernâni é recorrente em algo que só tem o condão de criar alarmismo público, essencialmente em falanges da população que são mais vulneráveis. Alguém explique a este senhor que por meia dúzia de bandalhos terem invadido uma esquadra da polícia nem todas as esquadras vão ser invadidas, que por um bebé desaparecer no hospital de Penafiel, nem todos os bebés vão desaparecer e não teremos que instalar chips e pulseiras a torto e direito para evitar essa hecatombe.

Generalizar é tão perigoso, repudiante mesmo.


9 comentários:

  1. muita razao no que dizes abraco

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  2. Ricardo Madeirajulho 24, 2008

    Pois é, o problema parece ser que as hecatombes vendem menos que as catástrofes, as tragédias soam melhor do que os contratempos e os seres bicéfalos são menos estranhos do que aqueles que nascem com duas cabeças. Vá-se lá perceber estas coisas... É pantanoso este terreno entre o jornalismo informativo e o jornalismo lucrativo.

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  3. Excelente o teu comentário. è o que dá ser a mulher de "patrão"
    Um abraço
    Luís Burgos

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  4. Confesso que não li tudo, a hora e o sono também não ajudam, mas não pude de deixar de comentar este post por tres razões:
    A primeira é que concordo plenamente as criticas que fizeste à horrível jornalista Manuela Moura Guedes.
    A segunda é que discordo com as criticas ao Hernani Carvalho.
    É obvio que se um bebe é raptado, não quer dizer que vai haver outro amanha, nem quer dizer que tenha que haver pulseiras electronicas em todas as maternidades.
    Só que pelo facto de um recem nascido ser vitimo de rapto ja é um serio problema, mesmo que seja o primeiro da historia. E quando se fala a muito tempo da instalaçao das pulseiras electronicas e nada se faz, então o problema torna-se muito maior.
    E a terceira (e atenção que nao tenho nenhuma obsessao por ninguem, e peço que reparem que vou galar no geral, o nome Hernani Carvalho so vai aparecer como exemplo porque foi aqui citado), axo injusto fazerem criticas a pessoas que perante as cameras dizem o que pensam sem terem medo do que lhes pode cair em cima, sejam pessoas anonimas, sejam humoristas, e sobretudo sejam jornalistas como é o caso do Hernani Carvalho. Porque pessoas dessas fazem falta à televisao portuguesa e essas criticas acabam pos "destrui-las" e um desses casos foi o programa Levanta-te e Ri.

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  5. so acrescentar que a pouco disse que pessoas directas fazem falta à televisao portuguesa, tambem fazem falta à nossa sociedade que ainda vive no medo de usar a sua liberdade de expressao.
    e acrescentar tambem que apesar de ter discordado nesse assunto, dar os meus parabens pelo blog porque concordo em tudo o que dizes, e porque acabas por ser dessas pessoas que fazem falta à nossa sociedade.

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  6. Muito obrigado pelas suas palavras e criticas construtivas psantos. Como digo no artigo tenho muito apreço pelo Hernani Carvalho e a minha critica em nada belisca o seu trabalho. Contudo acho perigoso o uso dessa liberdade de expressão em nome de um alarmismo público exagerado. Por um juiz ter sido agredido numa sessão judicial isso não torna os tribunais em ringues de boxe, nem por um bebé desaparecer os hospitais se tornam em células de tráfico humano. Acho que é possivel passar a mensagem de outra forma. Acho que é possivel usar o mesmo tempo de antena protegendo crianças, idosos e doentes e conseguindo, com outro tipo de discurso, os resultados pretendidos.

    Uma vez mais obrigado pelo seu comentario. grande abraço

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  7. boa noite.... peço a sua opiniao acerca da eutanasia!! muito obrigado

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  8. Março 09, 2009 Anónimo disse...
    boa noite.... peço a sua opiniao acerca da eutanasia!! muito obrigado

    Caro leitor,

    Terei muio gosto de escrever, num futuro proximo, um artigo sobre o tema que pediu.

    Cumprimentos

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