sábado, 18 de outubro de 2008

Magalhães: Vírus Nacional

Em 1519 deu a volta ao mundo, em 2008 o Magalhães parece dar a volta à cabeça de muita gente.

A 27 de Junho escrevi aqui mesmo que seria «interessante ver a mudança de postura de José Sócrates, um Primeiro-Ministro que irá perpassar a imagem de menos colérico, mais tolerante (..) mais terra-a-terra». Meu dito, meu feito.

Naquele que foi o projecto que melhor congregou as duas grandes bandeiras do executivo socialista nesta legislatura (Educação e desenvolvimento tecnológico) assistimos a um PM radiante com a antecipação da quadra natalícia distribuindo portáteis pelas escolas, louvando as benesses que o novo aparelho traria à Escola.

Mecenas que é mecenas é narcisista. Nas vésperas de um ano crucial para as aspirações socialistas seria de espantar que o projecto Magalhães não ganhasse contornos de bom samaritanismo com o Governo a reclamar, para si, o mérito de algo tão pioneiro.

A visibilidade é um pré-requisito democrático e José Sócrates é ímpar na criação de eventos mediatizáveis. Condenável? Não me parece. Apenas a consciência de que na política pós-moderna não existe obra feita caso não haja obra visionada.

Ao contrário de muitas conferências que a antecederam a de apresentação do Magalhães não foi mais uma mera ocorrência tornada acontecimento. Tempos houve em que Sócrates, com toda a pompa e circunstância, anunciava a batalhões de jornalistas decréscimos de 0,4% na pendência processual. Desta vez o caso tinha razão de ser.

Centremos as atenções no que interessa.

Populista ou não, eleitoralista ou não, demagógica ou não o Projecto Magalhães é uma iniciativa meritória e visionária.

Será o pequeno computador a chave para a resolução da crise que se tem crescentemente agudizado? Certamente que não mas ele está embuido num espírito social, numa aposta na formação e inclusão das crianças portuguesas e da gratuitidade do ensino nacional.

Nos dias subsequentes à aparição pública do Primeiro Ministro veio-me à ideia a personagem interpretada por Nuno Lopes nos Contemporâneos. Sim esse tal do "vai mas é trabalhar", um individuo deambulante, que no seu ócio se entretém a criticar tudo e todos sem nexo.

Tudo serviu para criticar uma iniciativa tão ousada que nenhum outro executivo foi capaz sequer de projectar. Ele foram as irregularidades fiscais da empresa fabricante, o facto de os componentes não serem afinal totalmente feitos em Portugal, a fragilidade do computador, as acções de formação obrigatórias, o malhão-malhão do Magalhães.

Algo vai mal neste país. Trata-se de uma cultura que me apraz chamar de "erva daninha", quase como que um vírus informático, um criticismo irracional a tudo, uma desconfiança total em todas as iniciativas que vai minando quaisquer perspectivas de progresso.

Infelizmente este filme não é novo, alias ele encarna bem o espírito luso. Parece que os estou a ver, a gesticular enfurecidos contra as Caravelas lançando impropérios contra a imbecilidade de se navegar por "mares nunca dantes navegados". Esses mesmos, terão sidos os primeiros a receber aplaudindo efusivamente os navegadores portugueses vindos dos novos mundos carregados de ouro e especiarias

Tenho pena mas é o País que temos.

Uma vez mais a atitude de alguns professores vem dar razão a Maria de Lurdes Rodrigues. Para muitos professores, avessos ao espírito de mudança, um computador não é um aliado para os mais pequenos mas um objecto que vem acentuar a sua própria infoexclusão. Numa profissão em que alguns não souberam acompanhar os tempos e ainda ensinam nos mesmo moldes em que foram ensinados há meio século um computador é motivo de pânico presumo.

Para além de mais criticaram tudo aquilo que havia para criticar, a humidade nas paredes, a falta de giz, as refeições em pavilhões, a falta de pessoal não docente, a (não) progressão na carreira, a avaliação, o estatuto do aluno, os exames só faltava o pobre Magalhães para se juntar à lista negra.

Num país de maldizentes espero que o Magalhães sirva para formatar muitos sistemas decadentes e faça "Delete" a muita gente acomodada.

Este artigo pode ser também lido no Portal PTGate

3 comentários:

  1. voce escreve como ninguem..é um prazer ler seus textos. abraco de sao paulo

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  2. daniel almeidaoutubro 19, 2008

    no comment ma man :) está brutal, está genial ;) abração :)

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  3. Ricardo Madeiraoutubro 20, 2008

    É realmente muito bom ter sinais de inovação no nosso país. É motivo de orgulho para todos nós que se faça mais e se faça melhor. Todos aqueles que tem o tempo para se sentar e fazer comentários depreciativos sobre as nossas "caravelas" são sem dúvida parte do problema, cabe-nos a nós, portugueses, trabalhar para sermos parte da solução!

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