
Momentos históricos viveu a RTP com o programa "Os Grandes Portugueses".
Não se pense, porém, que tais momentos advieram do facto do concurso reviver as ilustres figuras que marcaram a história portuguesa.
É que desde a novela Gabriela Cravo e Canela, que chegou mesmo a levar à interrupção dos trabalhos parlamentares, que a elite académica não se envolvia tanto num mero programa televisivo.
De facto, é de louvar a iniciativa da RTP em promover o nosso imaginário colectivo e a nossa história
O estigma das audiências levou a RTP a optar por um programa interactivo, de debate aberto ao público, com recurso à votação via telefone, SMS ou online, com as cidades a encherem-se de mupies e cartazes anunciando as figuras a concurso.
Ponto 1 - Publicitação e Conceito de Programa
As minhas primeiras criticas vão nesse sentido. Nos cartazes com que me deparei nas ruas podia ler-se, por exemplo, "Marquês de Pombal: Visionário ou Sanguinário?". É totalmente redutor cingir figuras tão distintas do nosso património cultural a dois adjectivos, tenham eles conotação positiva ou negativa.
O modelo ideal para o serviço público será, "Formar, Informar e Entreter". A RTP, com os "Grandes Portugueses", subverteu esse principio para "Entreter, Informar e Formar"
A estação pública não quis tornar concurso em mais um "A Alma e a Gente" (José Hermano Saraiva) um programa de inequívoco valor formativo mas que se baseia apenas na debitação histórica, o que o torna pouco apelativo às massas.
A outra nota negativa vai para um segundo slogan "Só há lugar para um". Este é mais um dos exemplos em que as estratégias de marketing se sobrepõem à ética daquilo que deveria ser serviço público.
Terá querido a RTP passar a ideia de que existe espaço na história para uma só figura? A História é feita de personagens que em contextos, situações, condicionantes e regimes distintos deram um contributo inigualável para aquilo que hoje somos. A História é multi-contextual e, sobretudo, plural, nunca apenas reservada a uma pessoa só.
Com essas duas acções de posicionamento dispares a RTP criou um binómio que acompanhou o programa desde o começo. Por um lado, popularizou-o mas, por outro , entregou o debate e a defesa das figuras históricas às elites culturais do país. Esta Popularização vs. Elitização criou uma barreira ténue entre o formato de puro entretenimento e o debate sério tornando o programa num "sarau popularucho".
Ponto 2 - Salazar e a autenticidade dos resultados
Uma pergunta retórica. Alguém de bom senso acha necessário votar
Excluindo as figuras históricas, restavam três grupos de opções: ou votaríamos no génio criativo dos poetas, nos valores humanos de Aristides de Sousa Mendes ou então, partidarizava-se o concurso e votava-se nos dois políticos a concurso: Cunhal e Salazar.
O primeiro pecado mortal da RTP foi ter excluído o nome de Salazar da lista de candidatos. Esse factor só lhe deu maior visibilidade.
O segundo foi o formato que a estação adoptou para o concurso; a pouca mobilização das massas populares levou a uma partidarização e militância nas votações. De acordo com Pacheco Pereira, o programa adoptou "um mecanismo que não sendo baseado em estudos de opinião mobilizou militantes".
O vencedor foi António Oliveira Salazar com 41% dos votos, o que perfaz cerca de 65 mil votos entre as quase 160 mil chamadas validadas. Mas devemos tirar ilações da votação? Os portugueses quererão um governo autoritário?
Muito se discutiu sobre os resultados do concurso. "subida da extrema direita em Portugal", "voto de protesto político", "morte simbólica do 25 de Abril". Aqueles que desvalorizavam o programa, apelidando-o de puro entretenimento, foram aqueles que criaram maior celeuma por causa dos resultados, há que ser coerente nas atitudes.
Os resultados têm algum significado mas são nulos em representatividade.
O modelo de votação assentou mais na iniciativa dos telespectadores, do que em métodos estatísticos, cada pessoa poderia votar mais do que uma vez, desde que o fizesse por telefones diferentes. Estas pessoas não constituem uma amostra da população da qual possamos extrair leitura dos resultados. Segundo Pedro Magalhães, director do centro de sondagens da Universidade Católica, "a votação feita por telefone tal como foi feita para este concurso não tem qualquer representatividade. Porque não só evita enviesamentos como não dá a todos as mesmas probabilidades de serem escolhidos".
A votação da RTP tem grandes parecenças com as votações e pequenos inquéritos online, votações baseadas na iniciativa (só vota quem quer), algumas com a possibilidade do multivoto. Alguém as considera crediveis?
A verdade é que outros estudos, feitos pela Eurosondagem e Marktest, usaram métodos probabilísticos com base em amostras representativas de toda população portuguesa e dão como vencedores do concurso D. Afonso Henriques.