quinta-feira, 10 de maio de 2007

Madeleine: Para Inglês ver

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A pequena Madeleine McCann desapareceu na Praia da Luz, em Lagos.


Enxames de jornalistas, directos que preenchem um terço dos telejornais, acções conjuntas de Polícias Portugueses e Internacionais, fotos da menina espalhadas por tudo que é local público e acções diplomáticas de parte a parte.


Mas será que Madeleine foi a única criança a desaparecer em Portugal?


O caso mais mediático de desaparecimentos envolvendo uma criança portuguesa foi o do Rui Pedro. Desaparecido no dia 4 de Março de 1998, à excepção do destaque dado pela TVI, quase passou despercebido.


Mas então porquê este ênfase melodramático excessivo em volta da pequena Maddie?


Em primeiro lugar pelos contornos bizarros da situação. O incidente ocorreu num
país hospitaleiro, seguro, envolveu uma família pacata em férias e uma criança indefesa supostamente raptada.


O caso Madeleine envolve um dos sectores mais lucrativos do País, em que as
despesas são residuais e são em muito superadas pelas receitas, um sector tido como prioritário para o Governo, um sector fundamental para os interesses da construção civil, um sector que, a braços dados com a restauração, emprega milhares de pessoas nas épocas áureas.


Depois falamos de uma região com algumas especificidades, o Algarve. De acordo com o Observatório do Algarve, dados relativos a 2005, revelam que a comunidade Inglesa a residir no Algarve é composta por mais de 10 mil cidadãos. Segundo dados do INE, o Algarve é o destino preferencial de 72,1% dos Ingleses que se deslocam a Portugal, os turistas do Reino Unido representam 7 milhões de dormidas anuais. Representam também avultados investimentos imobiliários, nos sectores da restauração e lazer. Os Ingleses constituiem também mais de 60% dos estrangeiros que aterram no Aeroporto Internacional de Faro. Os proveitos com turismo atingiram, no primeiro semestre de 2006, um valor de 729,8 milhões de euros.



O Ministério da Economia português tinha mesmo planeada, para dia 16 de Maio, uma operação de charme, em Londres, para o lançamento da marca "
ALLGARVE". O programa que conta com um investimento na ordem dos 9 milhões de euros tinha garantida as presenças de José Mourinho e Cristiano Ronaldo.



Por considerar que o timing não seria o mais adequado o Governo Português decidiu adiar esta campanha.



José Dias, dirigente da Região de Turismo do Algarve (RTA), não escondeu a sua apreensão pelas «repercussões nefastas» que o desaparecimento da menina poderá ter para o Algarve enquanto destino de férias.


Mais do que uma criança desaparecida está em jogo o prestigio e a viabilidade
económica de um sector de actividade, de uma região, de um País.


Não querendo obviamente depreciar o caso que envolve a menina britânica a exposição mediática que ele está a ter é exagerada e deixa latente o espírito
subserviente e provinciano dos portugueses.


Enquanto que no caso Joana Cipriano as autoridades apenas iniciaram os trabalhos de campo nove dias após as suspeições, com Madeleine a acção foi imediata. Houve dois pesos e duas medidas.


Nos Call-Centers de operadoras de telemóveis existem mecanismos que permitem que os clientes que mais dinheiro dispendem sejam atendidos mais rapidamente. Espero que a condição económica dos pais da Maddie não tenha sido um factor para esta celeridade nos processos. Porque o grave não é a investigação do caso Maddie ter começado uma hora depois da denúncia, grave é que o caso de uma menina portuguesa pobre tenha tido que esperar nove dias.


Ao longo destes dias vão estar mais de 300 pessoas envolvidas nas buscas. São, segundo o Portugal Diário, 150 militares (GNR, equipas cinotécnicas, bombeiros), 100 inspectores da PJ , auxiliadas por um grupo de 50 voluntários, entre ingleses, residentes no Algarve, e portugueses. Há também a colaboração da Scotland Yard e de alguns membros da policia de Leicestershire, terra dos pais de Maddie. As buscas decorrem num espaço de 15 quilómetros através do controle das vias marítima, terrestre e aérea.


Rapto, tráfico sexual ou tráfico para adopção são estas as possibilidades apontadas pelas equipas de investigação.


Só mais uma nota para Gerald e Kate McCaan, os pais da criança.


Quem não se recorda da obra prima de Eça de Queiróz, "Os Maias" em que o Avô (Afonso da Maia) educou o neto (Carlos da Maia) segundo os moldes rígidos e austeros ingleses? Nem Eça de Queiróz, no expoente máximo do seu realismo ficcional, ousou separar avô e neto na hora das refeições.


Gerald e Kate McCaan incorrem numa pena de prisão que pode ir dos 2 aos 5 anos pela violação do artigo 138.º, 2, por exposição ou abandono de criança. Os pais deixaram os filhos a dormir, enquanto saíram para jantar, e foi nessa altura que Maddie desapareceu do quarto no R/C onde descansava.


Que pais são estes que deixam uma criança de três anos sozinha?


Sobre as insinuações que a imprensa britânica tem lançado sobre a actuação da polícia portuguesa, Miguel Sousa Tavares (Expresso nº1802) refere o seguinte: «a insinuição de que Portugal não pode, por natureza, ter uma policia criminal competente visa esconder outra perplexidade bem mais evidente, como é que um casal de dois médicos ingleses deixa três filhos de 2 e 3 anos sozinhos em casa, para ir jantar ao lado, num restaurante?»


Resta-nos esperar que as autoridades sejam lestas e a pequena seja encontrada sã e salva.


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3 comentários:

  1. O caso da pequena Madeleine é um paradigma da sociedade mediatizada actual.
    O esforço colectivo na procura da pequena menina deve ser a pedra basilar de todo o processo, para que, pelo menos neste caso, exista um final feliz.
    Final feliz para a menina, e apenas para a menina, pois é uma criança inocente e merece crescer e uma oportunidade como todos nós.
    A propaganda dos media, os louros da operação policial, as critícas inglesas e mesmo a tristeza sentida pelos mais próximos é insignificante perante o drama que a pequena está a viver e marcará para sempre a sua vivência terrena.
    Ela sim é o centro e tudo o resto são apenas pequenos espectros do mundo contemporâneo.
    Em Portugal relembramos sempre o caso do Rui Pedro, um menino a quem lhe foi roubado um dos factores mais importante da nossa existência, que é a liberdade.
    Será que o empenho colectivo agora demonstrado foi o mesmo para o caso do Rui?

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  2. André Carapetomaio 10, 2007

    Realmente é triste pensar que possa haver propositadamente diferenças de tratamento nos casos mais conhecidos de crianças portuguesas desaparecidas (Rui Pedro e Joana..) e agora no caso da pequena Maddie. Isto porque devia apenas pensar-se que é uma inocente criança que desaparece, crianças essas que nunca têm culpa do que adultos totalmente de má fé possam fazer para as maltratar! Falo por mim, choca-me imenso pensar nestes casos e até pensar que um dia mais tarde também um filho meu possa correr riscos destes, ainda mais me choca pensar que se o meu estauto social e/ou económico não for o melhor, que as auitoridades iriam agir de formas menos eficaz! Espero apenas que este caso seja um dos que acabe de forma feliz para a menina! Quanto aos pais, sinceramente apenas digo que quem age desta maneira, ao ponto de deixar três criancinhas sózinhas tal como fizeram, não merecem a felicidade de ter alguém a tratá-los como pai e mãe!!!

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  3. O mais grave é que todos nao tenhamos as mesmas oportunidades... e que os outros casos foram tratados com negligência... pena... é uma pena...

    ao igual que os pais, uns inconscientes que deixam os seus filhos a durmir...
    é estranho... nestes paises de Europa onde os rapazes tem mais independência, mas a custa de que? de se distanciar da familia?
    Em Espanha tb há pais inconscientes... mas normalmente recorrem a Baby sitters ou a jardins de infância... mas nunca ficariam sozinhos... nem que for os avos a mirar pela criança...

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