quarta-feira, 23 de maio de 2007

Sarkozy: Debaixo de Fogo


França virou definitivamente à direita.


Há muito que o povo francês já dava indícios de querer esta mudança. O primeiro episódio aconteceu em 2002, quando o líder da Frente Nacional (FN), Jean Marie Le Pen passou à segunda volta das eleições com 16,86% dos votos. Mais recentemente, França rejeitou o Novo Tratado Europeu, num claro "Não" ao Europeísmo.


Para as Eleições Presidenciais de 2007 a escolha da Esquerda Francesa recaiu sobre Ségolène Royal, uma mulher que, politicamente, diz o historiador Jacques Marseille, "durou apenas o tempo de uma campanha". (Público, 8 de Maio 2007)


Os 46,9% obtidos por Ségolène nas Presidenciais constituiram um resultado inferior ao obtido, em 1995, por Lionel Jospin (48,3%). A derrota vai muito para além dos escassos 1,4% de votos perdidos. É que com estes resultados consumou-se a terceira derrota consecutiva da Esquerda Francesa nas Presidenciais.


Sarkozy foi uma resposta aos problemas que França enfrenta: desemprego, exclusão social, violência urbana, imigração.


É conhecido o sentimento chauvinista e patriótico dos Franceses, foi a vez de optarem por um político autoritário.


Regressado à política, em 2002, pela mão de Jacques Chirac numa campanha em que o tema dominante foi a insegurança pública, Sarkozy ocupou-se da pasta do interior onde mostrou o seu temperamento inflexível.


Foi sobretudo no mandato entre 2005 e 2007, sob as ordens de Dominique de Villepin, enquanto Ministro do Interior, que Sarkozy mostrou o pulso firme pelo qual os Franceses tanto anseavam.


Sarkozy sempre demonstrou a sua discórdia quanto à entrada na Turquia na União Europeia mas seria aquando dos tumultos ocorrentes em França em 2005, quando grupos de magrebinos, um pouco por todo o país, espalharam o terror incendiando viaturas que Sarkozy ganhou grande notoriedade.


Helena Matos, na sua coluna de opinião (Pingue-Pongue, Público) refere que "Sarkozy ganhou a presidência há dois anos, na noite em que chamou racaille (canalha) aos grupos que incendiavam, agrediam e matavam nos arredores das cidades francesas".


Sarkozy levou a cabo uma repressão policial na banlieue, ou seja, nos bairros periféricos franceses e tornou a acção da polícia totalmente punitiva.


Estas medidas foram aplaudidas mesmo nos antigos bastiões de esquerda, como é o caso de Hénin-Beaumont, 200 quilómetros a norte de Paris que, em 2002, deu 30% de votos à extrema direita de Le Pen.


O desemprego, o trabalho precário, a deslocalizacao de empresas, milhares de jovens a trabalharem "au noir", a recibos verdes, a crescente imigração e violência e o declinio dos Partidos de esquerda, nomeadamente do Partido Comunista, explicam a desilusão do povo francês e a eleição de Sarkozy.


Segundo noticiou o Público de 8 de Maio, a maioria dos votantes de Le Pen na primeira volta transitaram o seu voto para Sarko na segunda volta.


Por entre as virtudes apontadas a Nicolas Sarkozy na Visão nº 739 (2 de Maio 2007) são apontadas a sua energia, a forte convicção e o facto de ser um orador brilhante. No seu livro Témoignage, Sarkozy defende que "cada época deve ter as suas soluções, mas soluções fortes, voluntárias e determinadas".


Nas Presidenciais de 2007, mais do que a isenção para empresas de cargos sociais e impostos no pagamento de horas extraordinárias, do desconto no IRS dos juros do crédito à habitação, da criação de um contrato de trabalho único ou da revitalização do Eixo Franco-Alemão, foi certamente o discurso de combate aos desordeiros e a protecção do povo francês que garantiu os 53,06% obtidos por Sarkozy.


Nos últimos dias de campanha Ségolène cometeu um erro craso quando apelou ao voto pela negativa. Ségolène tentou usar o factor medo (usado na América na disputa George Bush, John Kerry) afirmando que a violência voltaria às ruas caso Sarko vencesse.


Helena Matos (Público) refere que "o fantasma da canalha voltou (..) e uma sociedade que vive com medo tende a premiar aqueles que chamam canalhas aos canalhas".


Após a eleição Sarkozy tem como prioridades um programa denominado de Tratado Simplificado que, segundo o próprio, "irá pôr a UE a funcionar, sem necessidade de referendos nacionais". Para além de querer revitalizar o eixo França-Alemanha e reforçar as relações com o sul da Europa, Sarko pretende estabelecer relações com África de forma a controlar a imigração. (Expresso, 12 de Maio 2007)


De acordo com o politólogo Bruno Cautrès, apesar das exigências de mudanças de fundo Sarkozy irá encontrar alguma oposição dado que os Franceses "não apreciam que se ponha em causa os seus estatutos e regalias".


Na noite eleitoral Sarkozy não teve direito a um estado de graça. Milhares de jovens da esquerda clássica e anarquistas radicais ocuparam as ruas circundantes à Bastilha e verificaram-se confrontos com a polícia após largas dezenas de viaturas terem sido incendiadas.


Veremos se Sarkozy terá um pulso suficientemente forte para aguentar o braço de ferro que o espera.


2 comentários:

  1. Pedro Cabralmaio 24, 2007

    Não é só a França que está a virar para a direita em todo o mundo grupos de direita e extrema direita, muito bem organizados á imagem do que era a Alemanha de Hitler, um povo muito eficiente e metódico, embora fosse só para o mal, estão a ganhar força. Este facto talvez se deva ao vazio da falta de liderança, os partidos são cada vez mais centristas, e para se tentarem agarrar a algo as pessoas saturadas com a sua própria vida viram-se para ideologias extremistas. O desemprego aumenta, os preços aumentam, a qualidade de vida diminui, os salários diminuem e basta verificar o que aconteceu no Canadá com os imigrantes Portugueses, que no Canadá são vistos como bom trabalhadores que executam serviços e trabalhos que os Canadianos não estão dispostos a fazer, e por isso foram “expulsos”, devido á eleição de um governo de direita.

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  2. Filipa Mendesmaio 24, 2007

    A população mundial vem-se apercebendo de que os seus problemas sociais e economicos continuam a aumentar sem qualquer solução à vista...pelo menos para breve. O povo prefere virar à direita, mesmo com o "fantasma" da opressão a que vem associado, prefere ficar com as suas liberdades contraidas mas com soluções práticas no horizonte. Debate-se aqui e agora o problema do desemprego versus liberdade (qualquer que seja). Se perguntarmos as pessoas o que elas escolhiam acho que teriamos a surpresa da diminuição da liberdade. Quem viveu o 25 de Abril não consegue acreditar que existam portugueses com este pensamento. A questão que se coloca é que existe muita gente sem dinheiro no fim do mês...Poderá por-se isto nos termos de uma questão de sobrevivência ou puro comodismo? Os proximos anos o dirão.

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